Reencontro 2011 - Testemunho de Arthur Sampaio

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"E for preciso, use as palavras."

Agora posso viver sem medo. Gritar, chorar, escrever, pensar, amar, sem medo. Em dois dias surge então em mim um surto de coragem. Uma vontade de lutar contra tudo. De vencer as tempestades, de correr pelos campos, de subir as montanhas, de saltar de edifícios tristes de minha própria existência.

Lá vem Ele, lá vem Ele! Lá vem Ele vencendo a minha vida! Andando sobre as águas! Aquelas mesmas águas tempestuosas que caiam violentas sobre o carro há uma semana. Que parecia querer destruir o veículo pra alcançar o lado de dentro, onde, em frente a um amigo, chorava com medo. Ah, o medo... Quem disse que ele não existe?! As águas torrenciais parece que me alcançaram. Já estavam me rolando a face. Quando aos prantos percebi que sou apenas um menino, conversando com um amigo adulto que parecia levar o mundo todo nas costas. Aquilo me dava muito medo. "MAS ELE VEIO!"

A semana corrida estancara a ferida de meus temores. Por instantes esquecia aquela loucura.

Ontem, embarquei numa viagem sem volta. "NÃO DÁ MAIS PRA VOLTAR!"  Gritavam muitas vozes na véspera da partida. A viagem ainda não terminou.

"O TREM DA LIBERDADE VAI PARTIR"

E eu estava atrasado. Mais exatamente, uma hora e quinze minutos. Desci com a pressa de quem esperou por muito tempo aquela viagem. Fiquei pronto com a rapidez que o medo dá na gente.

O caminho da ida é sempre mais leve. A gente vai falando da vida, e vai rindo de tudo. E assim fui.

Foi descer do carro pro corpo lembrar-me do café esquecido sobre a mesa da sala. A fome dos injustos! Era a fome o problema. Fome de vida! Fome de viver o que canto, e de cantar o que vivo. Fome de silêncio, de espera. Lançava ali as redes do outro lado.

Pra saciar a fome de silêncio Ele deu-me logo no começo gritos. Muitos gritos. Gritos urgentes, que ecoaram nos cantos mais remotos de minha alma. Lá fora, uma criança assistia a policiais maltratando seu pai. Eles lhe tiraram de dentro do ônibus e lhe bateram insistentemente. A menina corria atrás e gritava desesperada: PAPAI, PAPAI!

Ela tinha sua vida ABANDONADA nele. E de repente, via-se assim, sem chão. Eu fiquei pensando até onde tenho minha vida abandonada em meu Pai. Até que ponto doeria em mim a sua ausência. Aí começava a viagem verdadeiramente!

FALA, TEU SERVO ESCUTA

As palavras... Vieram apressadas. Ávidas em dizer-me muitas coisas. Encontraram espaço pra gritar no silêncio que eu fazia. Algumas gritaram violentamente. Outras apareciam depois pra acalmar. Mas nenhuma, absolutamente, nenhuma, ficou sem sentido. Nenhuma passou despercebida. Foram se acomodando onde dava na bagunça da minha vida. E onde estiveram foram completas, foram certezas. Calado, estava mais sensível. Assim, percebia um pouco assustado o céu se abrir cada vez que havia uma coisa nova por escutar.

Descobri duramente que a falta de tempero no mundo deve-se a meus medos. Descobri que preciso dar a vida. Que preciso TOCAR O MUNDO DE UM JEITO DIFERENTE. Que nem a minha imperfeição é mais desculpa: O bom artesão trabalha com instrumentos imperfeitos. Que posso re-significar o passado e todas as suas marcas. Que sou chamado a ser “absurdo” do mundo.

Descobri que por incrível que pareça, a gente sabe que é feliz quando está incomodado, e que preciso morrer pra dar frutos. Que o que canto e o que toco é na verdade uma resposta diária. Descobri que sou chamado a ser um deus. Não por essência, mas por participação. PAPAI, PAPAI!

Descobri ainda que se Ele é o centro, amo inteiramente. Ágape. Se o amo, amo a todos. Se Ele está no centro da minha vida, e está no centro da vida daqueles que amo, o nosso amor é perfeito. É perfeito simplesmente porque nos enxergamos através d’Ele. Descobri que de repente, olhando nosso Centro, com o olhar descuidado, olhamos uns aos outros. O amor quebrou as minhas pernas.

E ENTÃO, POR UM INSTANTE, FOMOS SÓ EU E VOCÊ

Olhos cobertos. Alma aberta. Voz gritada. Coração inquieto. Pés molhados. Rosto molhado. E você, você aqui. PAPAI, PAPAI! Era só o que eu sabia dizer. Você tem essa mania de me desconsertar. Preparei tudo o que ia falar. E ali, de frente pra ti, só sabia repetir sem parar: PAPAI, PAPAI! Estava revelado. Estava abandonado.

Você tocava meus pés de um jeito doce. Tocava a minha alma como ninguém nunca tocou. Dizia aos meus ouvidos palavras simples, que minha mente simplesmente esquecia-se de decodificar. Então ficavam como sussurros doces. Apenas sussurros. Ali desembarcava o trem da liberdade. Finalmente cheguei.

Olhava o céu estrelado por olhos marejados. Do outro de Ti, esses olhos iam contando minha própria história. E o Teu olhar acabava com meus medos. Milagre. O Teu olhar silencioso perguntava-me: Arthur, tu me amas? Curava a negação.

Eu não quero voltar. Eu quero morar aqui. Reencontrei no mesmo lugar, nos mesmos braços, nas mesmas lágrimas, a minha liberdade. O silencio comprou minha liberdade. E hoje eu acredito que é possível.

Ps. Como já disse uma vez, o céu deve ser como um eterno encontro da CAJU.
Ps2. Os Dehonianos são anjos de clégima.


Arthur Sampaio

Aspirantes 2 da CAJU